14 de fevereiro de 2018

A vingança do selo./ O Interior/ Guarda/ 8-2-2018



A vingança do selo.
Vinte e alguns anos depois vejo abrir serviços noticiosos sobre a indignação de políticos e gentes da capital da macrocefalia por causa do encerramento das estações do CTT.
                Entre alguns indignados vi a sempre determinada Catarina Martins a juntar-se a uns populares porque os CTTs decidiram encerrar a estação da Rua da Palma em Lisboa, precisamente ao lado da sede do Bloco de Esquerda. Tarde piaste!
                Pediram-me para assinar uma petição para a nacionalização dos CTTs e eu disse liminarmente que não. Fi-lo há vinte anos quando era publico, agora é tarde!
                Confesso que me dá algum gozo ver fechar em Lisboa coisas que no interior, e no caso na aldeia onde vivo, os serviços dos CTTs há quase vinte anos, e ninguém se importou com isso.
                A malta de Lisboa entretém-se com coisas bem mais importantes de certeza, para não terem dado conta de tudo isto. Estou pesaroso por terem sido apanhados de surpresa! Enfim!
                A estratégia de encerramento de balcões dos CTT é um processo que já vem de há muito, é transversal a um conjunto de governos e faz parte do pacote que Bruxelas exigiu a Portugal privatizar nos termos da adesão à União Europeia. Digam as coisas sem subterfúgios, que a malta entende!
                Esta irritação dos tipos das cidades de Lisboa e Porto por ficarem sem o seu balcão, que nem selos vende, é só uma pequena “vingançazinha” pelo facto de estarem a passar pelo mesmo que pessoas em centenas de povoações do interior passaram, quando viram impotentes encerrar sem justificação o balcão, que era fundamental para o seu quotidiano de uma vida dura, difícil e longe dos holofotes das Tvs e microfones das rádios.
                Confesso que me estou perfeitamente borrifando para que fechem os balcões de Lisboa, ou Porto, e talvez numa linguagem quase brechtiana me apetece dizer: “Que me importa, eu nem lá vivo”!
                Hipocrisia quanto baste, porque de facto o esbulho do que foram alvo empresas publicas e determinantes no desenvolvimento do País, que foram liminarmente desbaratadas e entregues aos privados que ficaram com os serviços que lhe convinham, ou melhor que interessavam aos acionistas sem rosto, e levou a que hoje se esteja completamente à mercê da agiotagem económica do capital, que recruta os seus sipaios e capatazes entre os ex-governantes do País. Estes governantes por acaso são curiosamente os mesmos que trataram de dividir as empresas, empurrar trabalhadores para reformas antecipadas, descapitalizá-las e por fim privatiza-las, com o argumento fátuo de que o sector publico não tem condições para gerir uma estrutura deste tipo!
                Não assino mais petições nenhumas e quero é que os CTTs não me percam mais encomendas. Se querem nacionalizar os CTTs façam-no, ao mesmo tempo de muita empresa que arruinou um interior que vai morrendo, e onde apenas sobrevivem aldeias vazias onde de meia em meia hora umas vuvuzelas roufenhas instaladas nas torres sineiras vão debitando “avés marias” e “pai-nossos” (não são padre-nossos que esses também já se piraram) para rigorosamente quase ninguém.
                Por este atentado ao direito que todos têm ao silencio assino a petição! O resto olhem vão para a REN que os parta!
Fernando Pereira
1/2/2018


5 de janeiro de 2018

Reviver o passado na CEI / Novo Jornal /Ágora/ Luanda/ 5-1-2018






Reviver o passado na CEI

No fim do ano transato a RTP brindou-nos com dois excelentes programas sobre a Casa dos Estudantes do Império.
                Um dos programas da autoria de Fernando Rosas, num belíssimo trabalho da” História da História de África” trata de uma forma documentada, e com loquacidade faz o enquadramento político do que foi a fundação, existência e extinção da Casa do Estudantes do Império, de Lisboa, Coimbra e Porto, e que foi fundada em 1944 e encerrada em 1965.
                O professor Fernando Rosas fez uma recolha documental sobre a CEI, e insere-a num contexto de luta contra o colonialismo. Não contextualiza a CASA num espaço que tendo alguma atividade política, foi também o lugar de encontro entre muita gente que por inação ou omissão nunca quis saber nada de guerras de independência, aproveitando apenas os serviços de procuradoria, farras, desporto e eventualmente utilização pontual da cantina para depois tratar da sua vidinha no futuro.
                Gostei da forma como Fernando Rosas coloca alguma da juventude da CASA num conjunto de utopias que se revelaram amargas depois da saída “a salto” de Portugal, para participar numa luta que de tanto sonhada, se revelou num acordar algo doloroso perante as circunstancias que então se viviam nos muitos locais da diáspora “anticolonial” que se espalhou por várias latitudes, e que em certa gente aumentou longitudes; É preciso sempre tentar, é melhor ter desilusões do que arrependimentos” Charles Bukowski. O historiador coloca o enfoque nas contradições do regime, em que abre a CEI para cultivar a “portugalidade imperial” entre os estudantes que iam estudar para Portugal, saindo das colónias, e que depois tem receio de a fechar porque iria dar o mote de que nem os “filhos da burguesia colonial” tinham qualquer interesse em perpetuar o regime e a situação de prevalência política das colónias. Teve que o fazer em 1965, com o argumento que já havia universidades em Angola e Moçambique, justificação que serviu para esconder as verdadeiras motivações do encerramento!
                Na mesma semana Margarida Mercês de Melo mostrou-nos um documentário sobre a CEI com outros contornos. Os programas são completamente diferentes, e o tom soliloquial de Fernando Rosas é substituído pelos relatos dos intervenientes na CEI, dando ao programa particular vivacidade e carregado de emotividade.
                Margarida Mercês de Melo surpreendeu todos com um excelente trabalho muito rigoroso em termos documentais, mas sobretudo pelo conjunto de pessoas que deram a voz para descrever o que foi a CEI, o seu contexto politico, o enquadramento sociológico e como se transformou num alfobre de militância da luta anticolonial, entre gente de várias proveniências, estratos sociais diferentes, mescla de raças e até visão política divergente.
                Com depoimentos de Adriano Moreira, Alberto João Jardim, Fernando Mourão (entretanto desaparecido), Fernando França Van-Dúnem, Fernando Vaz, Hélder Martins, João Cravinho, Joaquim Chissano, Lilica Boal, Luís Cilia, Magui Leite Velho Mendo, Manuel Boal, Manuel Videira, Mário Machungo, Miguel Trovoada, Moacyr Rodrigues, Óscar Monteiro, Pedro Pires, Pepetela, Raúl Vaz Bernardo e Ruy Mingas, este documentário é provavelmente o documento mais importante do “espólio” da CEI, e é sobretudo encerrar um capítulo das comemorações do 50º aniversário do encerramento da Casa dos Estudantes do Império, efeméride em boa hora protagonizada por Victor Ramalho enquanto presidente da UCCLA.
                A CEI foi para muitos o primeiro espaço de solidariedade, de discussão política, de iniciação cultural e lugar de amores e desamores. Era a vertigem dos vinte anos, de um tempo em que ainda se sonhava ser protagonista de tudo de bom para todos. Aqui vale a pena recordar a “Sem Medo”, protagonista do “Mayombe” de Pepetela: “Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios”!
                Recentemente Helder Martins, ex-ministro da saúde de Moçambique, e membro dos órgãos sociais da CEI no fim dos anos 50 fez sair o livro: “Casa dos Estudantes do Imperio”, da Caminho, que complementa os trabalhos anteriores pois é muito preciso quanto aos órgãos eleitos pelos sócios e comissões administrativas nomeadas pelo governo de Salazar. Em 1997, de uma forma quase clandestina surgiu o livro “Linha Estreita da Liberdade” (Colibri) do cineasta angolano António Faria, que dá um testemunho vivenciado do que foi a casa, num período em que as colónias emergiam como Países independentes e eclodia a guerra colonial em Angola.
                A Casa dos Estudantes do Império foi sempre vista com muita reserva por parte de muitos dos que lutavam pela independência de Angola, e as razões tinham a ver com o facto de que quem tinha direito a estudar eram os “filhos da burguesia” ou os “comprometidos com o regime”. Pura estultícia, porque a CEI só acabou por ser mais um lugar onde se afirmou a angolanidade, e foi nesse enquadramento que surgiram valorosos quadros da luta de libertação e no nascimento do País. Agostinho Neto é um dos exemplos maiores, foi sócio da CEI de Coimbra, e sempre todos recordam o carinho com que falava da CASA.
                Julgo que se ultrapassou esta fase algo pueril de desconfiança a quem foi da CEI, e traz-me á colação a frase de Paul Leminsk: “Quando eu tiver setenta anos vai acabar esta minha adolescência”!

                Bom Ano de 2018  

Fernando Pereira
2/1/2018          

16 de dezembro de 2017

INTERIOR DESAVINDO / O Interior/ 14-12-2017




INTERIOR DESAVINDO
Rendi-me há muitos anos ao desaparecimento paulatino do interior do País enquanto espaço territorial único, território social e espaço multicultural!
                Desde o resultado daquele arremedo de referendo sobre a regionalização de 1998, patrocinado por um sempre titubeante António Guterres, que as ultimas esperanças sobre alguma cedência da macrocéfala Lisboa se desvaneceram completamente. Esse referendo, se bem me lembro, apenas serviu para que os baronatos dos partidos do bloco central dos interesses pudessem gritar em plenos pulmões, por um brinquedo que todos sabiam de antemão que nunca iria mudar o que quer que fosse.
                Os exemplos para se combater a regionalização eram sobretudo a diabolização do modelo do Alberto João Jardim na Madeira (por sinal um adversário da regionalização no continente) e de Jorge Nuno Pinto da Costa, um defensor claro da descentralização, que foi usado como cartaz de um papão contra Lisboa. Toda a classe política de Lisboa, a que por lá se vai insinuando entre ministérios, parlamento, restaurantes, bares, night-clubs etc. quer perpetuar este estado de coisas, por isso não vale a pena estarmos aqui a exigir o que quer que seja para este interior desavindo.
                Depois do governo anterior ter atirado para a Guarda a sede da EPAL, o atual governo resolve constituir uma empresa publica de gestão da floresta em Lisboa, empresa que pouco vai servir do que olhar para o Parque de Monsanto. Numa de Guterres, Costa decide dar ao Porto o INFARMED para dentro de dois anos de estudos e aluguer de instalações parir-se uma decisão dizendo que não há condições para a instalação do Instituto no Porto. Com um pouco de sorte a DOCAPESCA vem para a Guarda e a Sede da Autoridade Marítima Nacional para Castelo Branco ou Portalegre.
                O interior cada vez tem menos voz, e se fizermos um exercício vemos que as entidades desconcentradas da administração central nas cidades do interior não decidem rigorosamente nada, nem tampouco são já ouvidas as pessoas para se elaborarem projetos de desenvolvimento e envolvimento económico e social deste país fora de Lisboa e de certa forma do Porto.
                Do interior fala-se quando há incêndios, neve ou quando há uns assassinatos em série. No resto faz-se exatamente o mesmo que fazia o SNI (Secretariado Nacional de Informação) de má memória. Divulga o mel, o queijo, o azeite, uns enchidos e o vinho e tudo isto representa entre 1,35 a 1,8% do PIB português. Vem cá as TVS perguntar se está frio no Inverno ou se está calor no Verão e fazem uns programas do mais pindérico que pode haver, e que só não são matéria-prima para humoristas, porque a maioria é má e só estão a enfadonhar o publico porque se habituaram a encostar-se ao poder e aos poderzinhos adjacentes.
                O drama de hoje começa a não ser apenas a fuga dos jovens para o litoral (Lisboa ou Porto), mas a falta de idosos para encher os equipamentos sociais disponíveis em demasia na região e que são um fator de fixação de gente nas mais recônditas aldeias do interior.
                Estamos no princípio do fim de mais uma etapa de fim do interior e dispensam-se discursos e loas aos seus projetos messiânicos de desenvolvimento. Eu pelo menos faço o meu papel, e já nem ouço para não me incomodar.
 Já nem o clero se quer por cá manter, porque as receitas são cada vez menores. A bem dizer foram os padres os que começaram a debandada, acumulando os poucos que restaram paróquias em numero significativo para as suas práticas. Deixaram de “prestar” uma série de serviços porque há cada vez menos contribuintes líquidos para as “obrigações da fé”.
Desejo-vos umas Boas Festas, com a certeza que para o ano estou a repetir o que aqui escrevi, provavelmente para cada vez menos gente que zarpa em busca de oportunidades que aqui não encontram.

Fernando Pereira
10/12/2017


8 de dezembro de 2017

Bibliofalando! / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 8-12-2017




Bibliofalando!
Resolvi dedicar os últimos meses a um exercício quase obsessivo de pôr em dia uma série de leituras de livros em que o tema era Angola.
                Comecei pelo livro de José Reis, “Angola o 27 de Maio, memórias de um sobrevivente”, editado pela Vega, e quando cheguei ao fim não consegui esconder a deceção de ter lido um relato cheio de hiatos, pouco rigoroso e sem qualquer relevância para contribuir para que o 27 de Maio de 1977 possa começar a ser devidamente esclarecido pelos sobreviventes. O livro parece ter sido feito a medo e a irrelevância de certas descrições tornam um livro pobre vindo de uma pessoa de quem esperava francamente mais.
                Comentando com um amigo comum o livro, e manifestando a minha deceção, foi-me adiantando que iria sair um segundo livro sobre o mesmo assunto. Confesso que despercebo porque é que não saiu com tudo no primeiro, que repito é paupérrimo nos fatos descritos.
                Também editado pela Vega, de Hugo Azancot de Menezes, “Percursos da Luta de Libertação Nacional”. Um livro que são memórias pessoais numa viagem ao interior do MPLA. O livro é interessante, pouco elaborado na verve, mas sobretudo um documento importante sobre a luta de libertação nacional e as querelas internas no seio daquele MPLA que muitos de nós não conhecíamos, mas que acabámos por herdar nos tempos conturbados do dealbar da independência.
                Hugo Azancot de Menezes acrescenta uma nova versão da data de nascimento do MPLA, situação recorrente entre todos os seus conhecidos fundadores e outros que acham que terão estado nessa génese. Cada depoimento de um “pai fundador” do MPLA só vem lançar uma nova confusão na data em que o Movimento foi criado, deixando-nos justificadamente incrédulos perante a historiografia oficial, que remete a fundação para o 10 de Dezembro de 1956.
                Não fora os exageros das notas de Carlos Pacheco, e o livro lia-se bem! As notas exacerbam algumas situações que não sei se teriam sido do agrado do autor, o que torna o livro algo pesado, mas não lhe retira em nada a contextualização histórica. Um livro a ler.
                De José Manuel da Silveira Lopes, também da Vega, saiu o livro “O Cónego Manuel das Neves, um nacionalista angolano”, um ensaio de biografia política. Uma obra interessante, feita com rigor e que provavelmente coloca o Cónego Manuel das Neves como uma das figuras cimeiras do nacionalismo angolano, transversal a todos os movimentos de libertação. Queria a independência do território para a dignificação do cidadão angolano, tão vilipendiado pelas autoridades coloniais e por todo o sistema vigente!
                Durante anos ignorado pela historiografia oficial, o contributo do cónego Manuel das Neves e a postura coerente do Arcebispo Moisés Alves de Pinho deram um contributo muito importante para o início da luta armada, e fizeram sentir na comunidade católica os desmandos do sistema colonial português em África. Esta obra tenta ser rigorosa, sustentada pelos documentos possíveis, pois era útil utilizar os arquivos da PIDE em Angola, se é que existem, ou se estão conservados, para responder a inúmeras dúvidas com que os investigadores se deparam quando tem que fazer algum trabalho sobre gente de Angola. Um livro a merecer leitura atenta.
                Neste espaço de tempo em que tive oportunidade de ler alguns livros posso dizer que não me alongarei muito sobre a obra de Leonor Figueiredo, porque parte sempre do princípio que o MPLA é sempre culpado de alguma coisa! A autora faz um conjunto de entrevistas a várias pessoas, e o que se retém é a existência de grupos pequenos, demasiado circunscritos à discussão teórica do M-L e com pouca intervenção ao nível da luta que havia no País. Circunscrevia-se a Luanda, na Universidade e acho que o título “O fim da extrema-esquerda em Angola” talvez seja manifestamente exagerado, como é um exagero o subtítulo “Como o MPLA dizimou os Comités Amílcar Cabral e a OCA (1974-1980)” e que é o leitmotiv do livro. Sinceramente não gostei, mas é uma opinião subjetiva. Editado pela Guerra e Paz.
                Neste conjunto de livros deixei propositadamente para o fim, o livro “Joaquim Pinto de Andrade, uma quase autobiografia”. Livro graficamente excelente organizado por Diana Andringa e a sua esposa recentemente falecida Vitória de Almeida Sousa, com posfácio do advogado Mário Brochado Coelho e editado pela Afrontamento.
                Um livro que é o conjunto de cartas, notas, testemunhos do que foi o percurso de um dos valorosos combatentes pela independência de Angola, que mereceria mais respeito e admiração pelos que hoje fazem depoimentos para uma futura história de Angola. Conheci-o e pontualmente tínhamos as nossas divergências, mas sempre me habituei a ver Joaquim Pinto de Andrade como uma referência no grupo restrito dos que combateram o colonialismo, com ideias muito definidas e intransigente nos princípios. Pouco dado a cedências nos valores de defesa do humanismo e da cidadania plena para os angolanos. Foi um combate de uma vida.
                Um livro mais que recomendável, porque só se pode dar futuro ao presente com o cabal conhecimento do passado.
                Charles Bukowski dizia: “É preciso sempre tentar, é melhor ter desilusões que arrependimento”
                Como ando numa voragem de leitura, prometo em breve nova crónica sobre os que já li e o que irei ler em breve. Não perdem pela demora!

Fernando Pereira
19/10/2017



10 de novembro de 2017

Uíge: cem anos que viva… / Novo Jornal/ Ágora / Luanda 10-11-2017



Uíge: cem anos que viva…
A 1 de Julho de 2017 a cidade do Uíge comemorou cem anos, data que marcou a chegada de um parente afastado, capitão da “circunscrição militar do Bembe”, de seu nome Manuel José Pereira que ocupou uma colina onde instalou o primeiro fortim português naqueles lugares.
                Enquanto a Europa e no sul de Angola estava encarniçada a 1ª guerra mundial, quando Kerensky se preparava para perder o poder na Rússia para os sovietes, abrindo caminho à Revolução de Outubro, nas florestas do norte de Angola “pacificavam-se” as gentes que queriam manter seus hábitos, sua religião, sua cultura e a sua economia! Triste sorte!
                Fica no comando deste fortim, erigido onde hoje é o centro cívico da capital da província, o Alferes Tomaz Berberan que de facto transforma o pequeno forte num entreposto comercial que ganha alguma dimensão rapidamente.
                Numa ação de “promoção” o alferes Berberan começou a sensibilizar empregados do comércio de Ambriz e Ambrizete para se fixarem na povoação do Uíge, e assim vai florescendo a cidade que passa da administração militar para a administração civil em 1922.
                A cidade tornou-se no centro da produção de café da região, e os melhores terrenos passaram a maior parte das vezes, por meios sórdidos para a pertença de fazendeiros brancos, relegando os locais para a miséria, para o trabalho coagido e para a fuga para o vizinho Congo-Belga.
                Foi vivendo ao longo do tempo colonial os momentos de euforia e os de desanimo, fruto das cotações do preço do café a nível internacional. Essas circunstancias foram condicionando o ritmo da urbe, que em 1955 num arremedo patrioteiro muda o seu nome original para Carmona, procurando homenagear o recentemente falecido presidente de Portugal. Em 1956 foi elevada à categoria de cidade!
                Em Março de 1961 os fazendeiros brancos sitiados na cidade repeliram os guerrilheiros que iniciaram a guerra de libertação no Norte de Angola, tendo sido “Carmona” um dos lugares simbólicos de resistência dos “portugueses”. Foi libertada pelas FAPLAS e tropas cubanas em Janeiro de 1976, colocando em fuga os elementos da FNLA que se encontravam na cidade e arrabaldes.
                Restabeleceu-se a administração central através da instalação do governo provincial, com todos os serviços desconcentrados da administração publica, mas a atividade económica da cidade e da província soçobrou por completo com a saída massiva dos colonos portugueses.
                Ao longo destes quarenta e poucos anos de independência viveu períodos muito maus, fruto da guerra permanente até 2004.
                Teima em sair do marasmo, mas o que se assiste é ao abate indiscriminado de árvores de grande porte e à erosão rápida da camada produtiva dos solos. O Uíge assiste hoje a um verdadeiro crime ambiental, que vai deixar a curto prazo uma população sem qualquer meio de desenvolverem uma atividade produtiva sustentada, que promova a fixação de pessoas à região.
                A malha urbana é um exemplo típico como uma determinada atividade agrícola (café), e o comércio a ele ligado foram determinantes no desenvolvimento de uma cidade. Os anos 50 do seculo XX a cidade cresceu e multiplicaram-se as construções particulares e fizeram-se casas para instalar os funcionários públicos. Não faltava também o caracter lúdico e turístico, com clubes e cineteatros, hotéis e campos desportivos.
                Em Novembro de 1968 foi feito o 1º plano de Urbanização de autoria de Maria de Lurdes Rodrigues, que coincidiu com a criação da repartição de urbanismo na Camara Municipal de Carmona. Era um projeto interessante no que ao enquadramento dos edifícios nas ruas, largos e praças. Propõe jardins, edifícios em altura, habitações unifamiliares isoladas, dizia respeito. Tem, contudo, o senão de não dar uma visão de conjunto, e apesar de resolver algumas questões urbanísticas, deixa muitas questões em aberto, ficando por concretizar a utilização dos espaços intersticiais.
                Não deixa de ser interessante que há no Uíge algumas edificações que recuperam a “casa portuguesa” principalmente o bairro residencial para funcionários públicos. O modelo “Português Suave” está patente na delegação do BNA e ainda de certa forma nas instalações dos Correios e Finanças. O Palácio do Governo e a Camara Municipal tem uma feição monumentalista. O edifício da rádio, de expressão moderna é atribuído ao arquiteto angolano Simões de Carvalho, curiosamente o autor do edifício da RNA em Luanda.
                Não nasci no Uige, mas fui para lá com quinze dias. Foi o Uige da minha meninice até á minha entrada para a escola no dealbar dos anos sessenta. Depois passei a ir até lá nas férias com regularidade, depois irregularidade, seguida de falta de regularidade até à ausência total de regularidade, o quer dizer que deixei de ir.
                Nunca foi uma cidade que me marcasse por aí além, e sinceramente não apreciava muito o “far-uíge” prevalecente no quotidiano da cidade, com algum novo-riquismo a dominar a estratificação social da cidade, que o preto estava naturalmente impedido de partilhar.
                Desejo ao Uige, aos seus nados e criados melhores dias que outros tiveram nos cem anos anteriores, e que encontrem na cidade a atividade que os fixe e que ajude a promover a educação, a saúde e a intervenção cívica dos seus cidadãos.
                O centenário que um dia festejar é ter tudo isso acessível à generalidade da população e assim o Uige será uma cidade rica, porque é solidária e há um estado de excelência no social para as gentes desta terra abençoada por água e até ver vegetação que já foi luxuriante!

Fernando Pereira

17/10/2017

13 de outubro de 2017

Outro regresso do Conde de Abranhos / O Interior 13-10-2017



Outro regresso do Conde de Abranhos

“A ideia também muda a pele, como a serpente”
            Guerra Junqueiro

            Finda a efervescência eleitoral, amansados os egos e guardados os pregos, repõem-se a modorra em que cai a politica local nos tempos seguintes ao pleito eleiçoeiro.
            Eça de Queiroz, na sua verve imorredoira, deixou-nos figuras picarescas que se vão perpetuando no tempo e no quotidiano político do País.
            Uma das facetas, sem dúvida das mais curiosas, da ironia de Eça, é a que se refere ao nosso país, quer ridicularizando a megalomania histórica de alguns portugueses, quer pondo em evidência a imbecilidade e incompetência dos homens públicos, quer ainda criticando a mesquinha vida portuguesa, como a politiquice, a falta de organização, a tacanhez de pensamento, etc., tudo isto consequência direta da malformação educacional cívica da população.
            Do “Teodoro Raposo” da “Relíquia”, ao “Castanheiro” da “Casa de Ramires”, ao “Pacheco” de “Fradique Mendes” ou ao “Conde de Abranhos” da homónima obra  e outros, todos são ridicularizados e transformados em picarescas personagens pela verve corrosiva de Eça de Queiroz.
            Vou-me reter no traçado caricatural do Conde de Abranhos, que singrou admiravelmente, mesmo nas marés mais encapeladas, mercê duma forte dose de manha e espantosa facilidade de adaptação.
 Com efeito desde a adolescência, Alipio Abranhos manifestara abertamente a tendência para aquilo que se define por “não olhar a meios para conseguir os fins”.
            Trabalhava como advogado no escritório do Dr. Vaz Correia, amigo do “Desembargador Amado”, homem tão tacanho de inteligência quanto era desmedido em nutrição e fortuna, que vivia com permanente apreensão perante as ofensivas de Alipio a sua filha, e assim pudesse deitar mão à rica herdeira de seus milhões.
            Ultrapassada essa fase através de um hilariante episódio descrito na obra, em que a manhosice de Abranhos vingou, levando a noiva e o seu dote ao altar, o Conde atirou-se a novos “empreendimentos” e ei-lo destravado numa Lisboa onde o País sempre foi o centro, o interior, o litoral e tudo o resto.
            O seu comportamento na vida política foi uma sucessão de expedientes melífluos, traindo infamemente os partidos a que pertenciam adotando toda a sorte de sofismas, acobardando-se nos momentos precisos, procurando enfim, explorar os primores das suas falsas qualidades de grande génio.
            O certo é, porém que chegou a ser deputado e, mais tarde, como remate de tão brilhante carreira política, ministro da Marinha.
                Sic transit gloria mundi
            Uma homenagem singela aos Abranhos  portugueses!
                        Fernando Pereira
                        7/10/2017

26 de agosto de 2017

DO ANTIGAMENTE NA VIDA! /Novo Jornal/ Luanda 25-08-2017




DO ANTIGAMENTE NA VIDA!


Não consigo calar a minha perplexidade, quando sou confrontado com a alteração do nome de Namibe para Moçâmedes.
                Segundo julgo saber, foi uma decisão ponderada, depois de ouvir a população (finalmente alguém ouve a população para alguma coisa!), autoridades tradicionais e locais, empreendedores e o tecido associativo da cidade.
                Não sei o porquê, mas esta mudança fez-me lembrar o “engano ledo e cego” que foi a mudança súbita de Novo Redondo para N’Gunza, em homenagem ao soberano da região, N’ Gunza Kabolo, que ao invés de ter sido um defensor dos interesses dos seus súbditos tinha sido um “colaboracionista” com as autoridades coloniais. Para remediar a situação surgiu então Sumbe, a atual designação, que é uma corruptela do quimbundo “Kussumba”, que significa “comprar”. Era um lugar de compra e vende de produtos e assim permanece como capital da província do Kwanza-Sul, quase junto à foz do rio Ngunza.
                Moçâmedes deve o seu nome a João de Almeida Vasconcelos Soveral e Carvalho, governador de Angola (1782-1790), décimo segundo senhor de Mossamedes, de que seria 1º barão. A terra de que era donatário fica na freguesia de S. Miguel do Mato, Vouzela, Beira Alta, Portugal, e enviou uma expedição militar ao sul do território chefiada por Luis Cândido Pinheiro Furtado em 1785 para debelar algumas rebeliões dos “mocubaes”,”modumbes” e os “bacuissas”no lugar de Bissongo Bittoto, conhecido por navegadores por Angra do Negro e em cartas inglesas por Little Fish Bay. A enseada recebeu o nome da Lapa em homenagem ao Conde da Lapa, Manuel, filho do Barão, nascido em Luanda em 1784.
                Mossamedes era uma baia de corsários e local de tráfico de escravos, sendo a primeira feitoria do ano de 1840 de Guimarães Júnior e Jácome Filipe Torres, que tinha o exclusivo do comércio da cera e dos escravos.
                O grande impulso é dado por 140 colonos portugueses que desembarcaram na baia em 4 de Agosto de 1849, depois de perseguidos no Brasil. Viveram agruras imensas só minoradas pelo desembarque de novo contingente de colonos a 26 de Novembro de 1850.
                Nas margens do rio Bero, que o tenente-coronel Pinheiro Furtado chamou “rio das mortes” por terem sido chacinados pelos locais, dois oficiais da companhia para ali enviada pelo Barão de Mossamedes. Os que ali tinham a sua atividade, são substituídos pelos colonos que instalam os primeiros engenhos de açúcar no Vale dos Cavaleiros e assim Mossamedes chega a 1974 como uma das únicas cidades em África com mais brancos que negros (A outra é Sá da Bandeira, Lubango até ver)
                Mossamedes foi elevada a vila a 7 de Maio de 1855, e recebeu a categoria de cidade em 1907, quando o Príncipe Luis Filipe visitou Angola.
                Já agora despercebe-se porque é que o antigo Porto Alexandre, hoje Tombwa, não se chama “Porto de Pinda” como ainda era chamado em documentos de 1846, colonizado por pescadores de Olhão que já vinham em busca de porto seguro desde o Gabão e S. Tomé. Mais abaixo aparece a inóspita Baia dos Tigres, que nunca teve esses felinos. O nome deve-se basear no curioso espetáculo que ali oferecem as areias quando o vento as move em desenhos caprichosos, o que, com efeitos de luz e sombra, visto à distancia, dá a ideia duma colossal pele de tigre estendida ao longo da grande baía.
                Em 1929, reflexo da crise global, o sul de Angola vivia a pior das suas crises. A produção de peixe seco excedia a procura e grande parte do pescado que apodrecia nos armazéns era deitado ao mar. Toneladas de peixe, resultado do trabalho das gentes perdiam-se e a miséria grassava na cidade.
                Neste período um alemão que geria a casa Weermonn, Brock &Cª solicitou licença para exportar para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, que se destinava a fins industriais. Não havia legislação que impedisse e foi autorizada a exportação de farinha que passou a servir de alimentação dos animais. Foi sendo sucessivamente melhorada a qualidade, e a verdade é que foi esta circunstancia que salvou economicamente a cidade e dinamizou uma industria pioneira em África, que se revelou florescente e interessante no quadro global das exportações da então colónia de Angola.
                Não sei porque se escolheu Namibe, ou melhor talvez tivesse sido uma parte da deriva de um tempo em que se decidiu mexer em tudo o que era toponímia colonial, onde se fizeram asneiras colossais, substituindo-se nomes que mereceria um maior destaque pelo que representaram no desenvolvimento do País, no domínio económico, social e cultural.
                Surpreende-me que se volte a dar o nome de Moçâmedes, que é uma homenagem a um alto dignitário da administração colonial. Talvez haja razões ponderáveis que justifiquem esta decisão, mas não as conheço.
                Só espero que seja uma infeliz exceção e que não se comece com uma deriva de “toponimiar” de novo com nomes do antanho, num momento em que há uma vontade de recuperar coisas do passado recente do território, algumas perfeitamente dispensáveis.

Fernando Pereira
22/8/2017
                 

                  
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